Sempre gostei de aprender, de escutar quem tem algo a ensinar que desconheço. E de cada uma das minhas escutas vida afora aprendi algo que trouxe comigo. Mas duas pessoas marcam meu aprendizado e costumo chamá-los de Mestres, porque sem dúvida ensinaram coisas que foram essenciais para a construção do que sou hoje e para a manutenção de meu equilíbrio na corda bamba que é a vida: Roberto Crema e Susan Andrews. Da Susan, a Didi, já falei em um post antigo, mas não tenham dúvidas de que voltarei a falar.
Ambos me “ganharam” porque são cientistas de origem. Sagrados e esotéricos, mas cientistas, pois a formação de ambos se deu no racionalismo acadêmico. Vamos combinar que é difícil, certo? Ambos embasam o amor na ciência e são PHDs em várias coisas, que acho que nem cabe aqui enumerar, a internet está aí para isso.
Mas do Crema creio que nunca falei. No final de semana de 27 e 28 de abril de 2013, ele esteve em Florianópolis para ministrar o Seminário Re-Visões do Mundo e do Humano para a Turma XII da Formação Holística de Base da Unipaz de Florianópolis. Fiz parte da turma VIII da FHB da Unipaz e além disso fiz uma série de oito seminários com ele durante um ano e meio em 2007 e 2008. Mas tenho por regra ouvi-los, ou um ou outro, ou ambos de preferência, pelo menos uma vez por ano, para que me lembrem de porque estou aqui. Quando digo aqui, digo aqui, existindo...
Este post vai ser comprido, pois todos me perguntam sobre o que ele fala e nunca consigo explicar, assim como nunca consigo explicar o que a Unipaz é. E decidi fazer um “resumo” da essência (que eu compreendi, obviamente) do que o Crema diz. E óbvio que serei beeeem simplista. Ele tem diversos livros sobre o caminho que postula.
Quase todo Seminário inicia estratificando o que somos: soma, psique e nous, tudo sustentado por pneuma.
Soma é o nosso corpo e ele salienta que se queremos a integração de todos os nossos estratos, é necessário que elejamos uma holopráxis, que auxilie na integração destes três aspectos. Meditação, yoga, tai-chi, caminhada consciente, qualquer coisa que façamos e isso é importante – efetivamente presentes com nossos corpos.
A psique, seria nosso pacote de memórias e vivências e dentro deste estrato ele salienta a necessidade da alfabetização psíquica emocional, relacional e onírica, para que se mantenham em equilíbrio.
O nous é o mais difícil de explicar. O mais fácil de dizer é que nous é a pausa, o silêncio contemplativo. O saber, a ciência são fundamentais. Mas precisamos ser capazes de aprender a estudar mas também de esvaziar uma mente muito cheia de sabedorias fechadas.
Pneuma é o ar, é o sopro que dá a vida e é o amor que a mantém.
Sempre salienta que uma pessoa plenamente saudável é aquela que tem sua essência retratada em sua existência. E, surpresa, encontro ressonância disso em uma matéria que fiz no semestre passado, Processos Psicológicos Básicos, com a Prof. Priscila, ao estudar superficialmente o humanismo. Digo surpresa porque honestamente entrei na faculdade de psicologia crente que o dito transpessoal e holístico ainda por cima e a academia andavam em sendas totalmente diversas. Nem tanto, nem tanto. Basta focar o olhar nos lugares certos. Ah, esta é outra frase base da minha vida e que aprendi com o Crema: mudar o mundo é mudar o olhar.
Desta vez, especificamente, ele falou um pouco da
transdisciplinariedade e da super especialização que a ciência vive nos dias
atuais. O que novamente ressoa com o que Gilvana, outra professora minha de Análise Funcional do Comportamento, reitera diversas vezes nas
aulas. Nas palavras dele “cada um
acredita que sabe tudo a partir do mínimo. É necessário abrir a escuta para o
diferente. É como a parábola dos sete cegos tocando um elefante, cada um
acreditava que tocava um animal diferente de acordo com a parte do elefante que
tocavam. O que tocava no rabo, dizia ser uma corda. O que tocava no marfim, que
era pedra, e assim por diante. Perdemos a visão global e não sabemos como agir
localmente. Pensar globalmente, para agir localmente e não viver loucamente.
Devemos ser capazes de ver o todo sem deixar de ver cada um e cada um sem
deixar de ver o todo.” Certo. Não é fácil. É um exercício que contraria
toda a nossa cultura e nossas crenças, mas acreditem é possível. Há raros
momentos em que tenho vislumbre desta possibilidade enxergando a mim mesma
participando de determinada situação e a sensação é ótima.
Como percebem, Roberto Crema é um homem rico, que tem a
admirável capacidade de em suas palestras unir na fala e na ação a ciência, a
arte, a religião e a filosofia. E digo para vocês que ele consegue. A cada
bloco inclui um carinho, uma poesia, um toque de doçura perfeitamente aplicável
ao momento, escuta à todos, descompensados ou não e os acolhe com uma suavidade
sem igual. E sempre tem uma roda onde todos se dão as mãos.
Vale salientar que percebo que tudo que ele diz não é
exatamente novo ou inusitado, com exceção da normose que menciono a seguir, mas
é um pouco do melhor da arte, filosofia, ciência e religião, interagindo de uma
forma deliciosamente descompartimentada.
Finalmente, e acho que este é um conceito extremamente
apropriado para nossos dias atuais, ele juntamente com Pierre Weil e Jean-Yves
Leloup cunharam há alguns anos o termo normose, um fenômeno social no qual
estamos imersos nos dias atuais. Novamente vou fazer uso de minhas anotações,
já que sou meio literal nelas: “na
normose as pessoas não se responsabilizam. Projetam a responsabilidade no
governo e subtraem seu próprio poder. São dois os caminhos da normose: o da
repressão (epa, epa) e o da liberação (oba, oba). Precisamos desvelar o caminho
do meio, que não vá nem para um extremo nem para o outro. É necessário que
tenhamos consciência do momento, de reprimir o contato ou liberá-lo. E assumir
a responsabilidade disso. Se nos habituamos com o veneno ele nos é agradável e
necessário. Quanto não o recebemos passamos mal. A democracia que temos hoje é
a democracia sem consciência.” A normose é a massa sem crítica. É o deixar
levar, vivendo a ilusão do ontem e a projeção do amanhã sem viver o agora,
aceitando que nossas vidas sejam conduzidas por consciências e crenças que não
as nossas.
Na Unipaz, aprendi o sentido real também de duas palavras
mágicas: possibilidade e dúvida. Duvide sempre do que se apresenta. Não como o
chato que fica rebatendo tudo por rebater ou para ter razão exacerbando seu
ego. Duvide do que se apresenta com carinho e gentileza. Duvide internamente e
mantenha a amiga pulga atrás da orelha sem ser desconfiado mas sendo curioso. É
a consciência do momento e a escuta ativa do que está sendo dito ou do que está
acontecendo. Nos falta escutar neste mundo normótico. Mas escutar de verdade,
sem ficar preparando o que vai dizer depois enquanto o outro fala. Sim, é bem
difícil.
Quanto às possibilidades, ah, as possibilidades. São tantas,
tão amplas e tão possíveis. Ampliam o mundo pois desfocam o olho de um único
ponto, de um sofrimento, de um drama, de uma desgraça. A escolha é nossa, pois
tudo é possível.
Poderia escrever muito mais, mas não pretendo fugir do meu
propósito inicial de falar especificamente sobre o Crema e dar um micro noção
do que é um seminário dele. Deixo o resto que aprendi para outros posts.
Mas a frase mágica é, sem dúvida: mudar o mundo é mudar o olhar. E agradeço profundamente ao Roberto por existir.
E para fazer uma verdadeira salada de frutas:
namaskar! ;)
- Agradeço à Professoras Gilvana Machado e Priscila Pinheiro por me deixarem citá-las e por me ensinarem com tanta maestria.