terça-feira, fevereiro 25, 2014

Escrevendo de dentro para fora e de fora para dentro.


Um dia desses minha mãe contou que a obstetra que me trouxe ao mundo, poetisa e escritora, tem o grande arrependimento de não ter escrito sobre as diversas histórias que vivenciou. Imagino que em sua profissão, tenha presenciado e participado ativamente de tantas existências e tenha lapidado a si mesma de uma forma tão profunda que o arrependimento faz sentido.
Sabe, em alguns momentos encontro eco nesse sentimento. Várias vezes a vida me faz pensar e refletir sobre diversos aspectos que me maravilham e provocam e imediatamente penso que preciso escrever sobre eles. Mas o momento passa e, em que pese a permanência do aprendizado, não escrevo.
Só que cursando psicologia enquanto trabalho na área do direito e termino de criar um adolescente, algumas destas fichas e inspirações ocorrem durante a aula o que, evidentemente, atrapalha porque ou escrevo ou presto atenção ao que acontece ao meu redor (com este texto perdi um pedaço da aula de psicologia do desenvolvimento e a revisão está me custando uma atenção dúbia em bases antropológicas – rs). Outras saltitam enquanto estou trabalhando e não posso desviar a atenção. E outras tantas em meus momentos de lazer. E concluo que gosto de escrever, mas que sem dúvida neste momento não é minha escolha principal. Escrevo porque me faz feliz e porque o que está aqui dentro precisa fluir.
Daí, novamente, a conclusão de que tudo depende do foco. E neste momento da vida, meu foco está em outros aspectos, embora eu fique com peninha quando as idéias passam como amigas queridas que seguem seu caminho. A eleição das prioridades, as escolhas, têm o poder de mudança e evolução. E a necessidade de escolher de acordo com o que nos faz bem e nos faz crescer, naquele momento da vida, torna-se cada vez mais fundamental. Assim as escolhas têm muito a ver com a maturidade também. Neste momento da vida, com quarenta e dois anos, faço menos para ser o que esperam de mim e mais para ser quem sou. Mas evidente que esta vontade de ser quem sou, não pode confundir-se com egocentrismo. Por exemplo, hoje sinto-me bem mais confortável e satisfeita quando ouço o outro do que quando falo ao outro sobre mim mesma e olhem que sou leonina, falante por natureza. Talvez por isso escreva menos, pois não ando fazendo questão de que as pessoas me ouçam ou me leiam e tenho guardado minhas impressões para mim mesma, um pouco cansada desse excesso de exposição que nos cerca. É como a música: viver, é afinar, o instrumento: de dentro para fora, de fora para dentro. A psicologia de facebook vive exaltando o de dentro para fora como se fosse o único caminho, mas perceber o de fora para dentro, longe do sentido material por favor, é fundamental para o crescimento individual. A empatia, a percepção do outro é fundamental para o de dentro para fora. Esse alardeado mundo individual e eventualmente egoísta do tipo “seja feliz e dane-se todo o resto” não me parece o modelo ideal porque autoriza que o “resto” seja quem vive na mesma sociedade que a gente, lado a lado.
Voltando às escolhas e à escrita, o que me deixa mais feliz nisso tudo, é que posso mudar e escolher novamente, sem estagnar ou acreditar que aquela configuração inicial de ser é absoluta, exatamente porque todos nós estamos em constante evolução, junto com quem corre ao nosso lado, afinal, ser coerente às vezes é sinônimo de enrijecimento. Então, se eu perceber que em algum momento dessa vida linda eu preciso escrever, escrevo mais e trago minhas amigas ideias para perto e para dentro do papel, feliz da vida.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

Eu Maior: o documentário

Estava protelando para assistir ao documentário Eu Maior pelo Youtube, pois pretendia assistir antes na telona. E hoje, 10/11, consegui. Através de um daqueles eventos em que o público financia um projeto, o documentário foi exibido em Florianópolis. Vale iniciar dizendo que a qualidade técnica do filme é impressionante.
Já tinha expectativas pois sabia participariam dele pessoas que, sem nem terem ideia, fazem parte do meu desenvolvimento pessoal até agora, dos meus passinhos nessa terra que me conduzem ao objetivo de sair daqui melhor do que cheguei. Lá estavam Roberto Crema, Monja Coen, Kaká Wera e o Prof. Hermógenes pessoas que já ouvi palestrarem, dotadas de um amor que transborda e toca a vida de quem os ouve de alguma forma, sempre. Mas apaixonei-me por outros mestres também aos quais não havia dado a devida atenção. Cortella é excepcional e de uma clareza e simpatia absurdas.
Emocionei-me de verdade, com lágrimas e tudo, com a fala inicial de Marcelo Gleiser quanto ao fato de que a conforme o conhecimento humano vai avançando o tamanho desconhecido cresce proporcionalmente. Diz que nunca vamos conhecer tudo sobre o mundo e precisamos viver com essa sabedoria, o que nos faz ser “mais humanos e menos deuses”. E acho que o tamanho desse desconhecido nos faz curiosos e questionadores tornando a vida uma Vida com V maiúsculo, dando essência e caminho às nossas vidas
Fiquei feliz de ter conseguido levar meu filho para assistir comigo, afinal, adolescentes têm muitas vontades. No meio do documentário, com a grandeza e simplicidade que só um adolescente pode ter, disse que o documentário podia ter durado dez minutos, porque todo mundo falou a mesma coisa. E respondi que aí está a beleza disso tudo. As pessoas que falaram eram das mais variadas áreas do conhecimento: arte, ciência, religião e filosofia e ainda assim, a humanidade que tinham em comum as fez responder de forma muito semelhante as perguntas: Quem sou eu? Para que estou aqui? e Qual o caminho da felicidade? Isso faz com que sejamos únicos mas paradoxalmente iguais, como disse Marina Silva.
O que concluo disso tudo? Que estou feliz porque aqui, dentro da Anelise, estou no caminho certo e acho que meu objetivo de sair desta terra melhor do que cheguei vai se concretizar com estrelinhas. :)    

Ah! Assistam, por favor. Como tudo que é realmente bom, é de graça:



quinta-feira, novembro 28, 2013

Amigos e Inimigos

Estava lendo mais um daqueles milhares de posts do Facebook dizendo: quem é seu amigo faz isso, quem é seu inimigo vai morrer com um pijama branco de bolinhas verde limão. Acho isso muito cansativo, porque uma das conclusões provisórias (sim, também aprendi que todas as conclusões valem só para hoje) da minha vida foi perceber que temos amigos, pessoas com as quais temos afinidades e carinho às vezes inexplicáveis, mas que não temos inimigos. Como assim, criatura? É que não acredito que só porque alguém não gosta de mim me odeia e me quer mal é meu inimigo. Explico. É muita pretensão de qualquer um de nós ser “amável” por todos o tempo todo, simplesmente não dá. O que somos sempre vai disparar gatilhos nos outros em virtude do que viveram. Se sou muito feliz, bem humorada, vou incomodar alguém que de imediato vai me taxar de falsa, porque simplesmente não posso ser feliz porque neste mundo não dá. Se reclamo muito das coisas e me vitimizo, sem dúvida vou incomodar outra cepa de pessoas. Se gosto de bichos, só falo deles e publico milhares de coisas sobre o assunto, danou-se. Óbvio que nem por isso vou deixar de fazer o que gosto. Mas definir para mim mesma que esta pessoa é minha inimiga porque não gosta de alguma coisa que eu faço, não faz sentido para mim. Eu estou no meu direito de gostar e o outro de não gostar. O pulo do gato da amizade é a sintonia.
Daí porque reafirmo que não vivemos em um mundo de amigos ou inimigos, da dualidade “ele é do bem ou do mal”. Vivemos em um mundo de pessoas. E todas as pessoas são boas e más ao mesmo tempo, faz parte do que é ser humano. Alguém ao teu lado pode te odiar em um determinado momento e no seguinte perceber que estava errado. Ou mesmo perceber que estava certo. E isso faz essa pessoa má?
Vivemos disparando gatilhos de ódios e de amor no outro com ou sem intenção. Mas até o conceito de intenção é vago, entendem? Porque não temos a menor idéia do que realmente vai tocar quem nos cerca, mesmo que dentro do nosso ilusório mundinho “eu sei de tudo sobre o outro porque sou muito intuitiva”, acreditemos que sabemos o que estamos fazendo. Mas por mais intuitiva que eu seja (o que é uma baita pretensão), ou até mesmo por mais amiga que eu seja de alguém, não conheço diversos aspectos dela.
Várias vezes pessoas me disseram coisas com a clara intenção de magoar e procurei resignificá-las, pois esta mudança de olhar me faz bem. Outras tantas, pessoas me dizem coisas que magoam quando eu sei que não era a intenção delas e quando percebem desculpam-se diversas vezes, exatamente porque, sem saber, tocaram em algum ponto sensível da minha construção pessoal. Todos temos estes pontos sensíveis, extraídos do nosso contexto e história de vida e ninguém os conhece, na maioria das vezes nem nós mesmos. A raiva irracional que sentimos em determinadas situações é o evidente resultado de pontos sensíveis tocados que desconhecemos em nós mesmos.
Sempre digo que o mundo enxerga apenas o que fazemos e deixa de enxergar o esforço, às vezes grande demais, que fazemos para deixar de fazer algo que sabemos que não será um bom caminho ou que acreditamos que não fará bem à nós ou ao outro. Exatamente porque aqui, dentro do que somos, ninguém pode ver.
Sou a favor da paciência e da aceitação. De enxergar que o outro ser humano que está ao teu lado, sendo às vezes um pé no saco, grosseiro e até mal educado em algum momento da vida dele e em outras circunstâncias pode sim ser uma pessoa legal, como já tive a prova com muitas pessoas que passaram por minha vida ensinando. Tá, mas é óbvio que não é por isso que vou me obrigar a conviver com alguém que não tenho a uma sintonia razoável, em virtude das minhas sensibilidades emocionais ou que vou ser cordata e passar a mão na cabeça de quem sempre dá um jeito de cutucar estes mesmos pontos. Não virei santa ainda, óbvio que me afasto, como qualquer pessoa com algum grau de auto-preservação. Mas consigo perceber que esta pessoa que não se afina comigo em outro contexto e com outras pessoas pode ser agradável e tranquila. E que o simples fato de ela não se afinar comigo não a torna minha inimiga, mesmo que diga querer “meu mal”. Porque entre o outro querer nos dar o mal e nós recebermos e aceitarmos o presente o caminho é muito longo.

De qualquer forma, agradeço imensamente aos amigos e amigas da minha vida, dos que tive, que tenho e que vou ter. Agradeço também aos que se intitulam ou me intitulam inimigos também (que nem sei se existem – rs), porque tive a bênção de aprender com todos eles. De minha parte fico feliz em dizer que não tenho nem nunca tive inimigos, afinal, não costumo guardar presentes que não vou usar...

segunda-feira, maio 06, 2013

Que é esse tal de Roberto Crema, Anelise?


Sempre gostei de aprender, de escutar quem tem algo a ensinar que desconheço. E de cada uma das minhas escutas vida afora aprendi algo que trouxe comigo. Mas duas pessoas marcam meu aprendizado e costumo chamá-los de Mestres, porque sem dúvida ensinaram coisas que foram essenciais para a construção do que sou hoje e para a manutenção de meu equilíbrio na corda bamba que é a vida: Roberto Crema e Susan Andrews. Da Susan, a Didi, já falei em um post antigo, mas não tenham dúvidas de que voltarei a falar.
Ambos me “ganharam” porque são cientistas de origem. Sagrados e esotéricos, mas cientistas, pois a formação de ambos se deu no racionalismo acadêmico. Vamos combinar que é difícil, certo? Ambos embasam o amor na ciência e são PHDs em várias coisas, que acho que nem cabe aqui enumerar, a internet está aí para isso.
Mas do Crema creio que nunca falei. No final de semana de 27 e 28 de abril de 2013, ele esteve em Florianópolis para ministrar o Seminário Re-Visões do Mundo e do Humano para a Turma XII da Formação Holística de Base da Unipaz de Florianópolis. Fiz parte da turma VIII da FHB da Unipaz e além disso fiz uma série de oito seminários com ele durante um ano e meio em 2007 e 2008. Mas tenho por regra ouvi-los, ou um ou outro, ou ambos de preferência, pelo menos uma vez por ano, para que me lembrem de porque estou aqui. Quando digo aqui, digo aqui, existindo...
Este post vai ser comprido, pois todos me perguntam sobre o que ele fala e nunca consigo explicar, assim como nunca consigo explicar o que a Unipaz é. E decidi fazer um “resumo” da essência (que eu compreendi, obviamente) do que o Crema diz. E óbvio que serei beeeem simplista. Ele tem diversos livros sobre o caminho que postula.
Quase todo Seminário inicia estratificando o que somos: soma, psique e nous, tudo sustentado por pneuma. 
Soma é o nosso corpo e ele salienta que se queremos a integração de todos os nossos estratos, é necessário que elejamos uma holopráxis, que auxilie na integração destes três aspectos. Meditação, yoga, tai-chi, caminhada consciente, qualquer coisa que façamos e isso é importante – efetivamente presentes com nossos corpos.
A psique, seria nosso pacote de memórias e vivências e dentro deste estrato ele salienta a necessidade da alfabetização psíquica emocional, relacional e onírica, para que se mantenham em equilíbrio.
O nous é o mais difícil de explicar. O mais fácil de dizer é que nous é a pausa, o silêncio contemplativo. O saber, a ciência são fundamentais. Mas precisamos ser capazes de aprender a estudar mas também de esvaziar uma mente muito cheia de sabedorias fechadas.
Pneuma é o ar, é o sopro que dá a vida e é o amor que a mantém.
Sempre salienta que uma pessoa plenamente saudável é aquela que tem sua essência retratada em sua existência. E, surpresa, encontro ressonância disso em uma matéria que fiz no semestre passado, Processos Psicológicos Básicos, com a Prof. Priscila, ao estudar superficialmente o humanismo. Digo surpresa porque honestamente entrei na faculdade de psicologia crente que o dito transpessoal e holístico ainda por cima e a academia andavam em sendas totalmente diversas. Nem tanto, nem tanto. Basta focar o olhar nos lugares certos. Ah, esta é outra frase base da minha vida e que aprendi com o Crema: mudar o mundo é mudar o olhar.

Desta vez, especificamente, ele falou um pouco da transdisciplinariedade e da super especialização que a ciência vive nos dias atuais. O que novamente ressoa com o que Gilvana, outra professora minha de Análise Funcional do Comportamento, reitera diversas vezes nas aulas. Nas palavras dele “cada um acredita que sabe tudo a partir do mínimo. É necessário abrir a escuta para o diferente. É como a parábola dos sete cegos tocando um elefante, cada um acreditava que tocava um animal diferente de acordo com a parte do elefante que tocavam. O que tocava no rabo, dizia ser uma corda. O que tocava no marfim, que era pedra, e assim por diante. Perdemos a visão global e não sabemos como agir localmente. Pensar globalmente, para agir localmente e não viver loucamente. Devemos ser capazes de ver o todo sem deixar de ver cada um e cada um sem deixar de ver o todo.” Certo. Não é fácil. É um exercício que contraria toda a nossa cultura e nossas crenças, mas acreditem é possível. Há raros momentos em que tenho vislumbre desta possibilidade enxergando a mim mesma participando de determinada situação e a sensação é ótima.
Como percebem, Roberto Crema é um homem rico, que tem a admirável capacidade de em suas palestras unir na fala e na ação a ciência, a arte, a religião e a filosofia. E digo para vocês que ele consegue. A cada bloco inclui um carinho, uma poesia, um toque de doçura perfeitamente aplicável ao momento, escuta à todos, descompensados ou não e os acolhe com uma suavidade sem igual. E sempre tem uma roda onde todos se dão as mãos.
Vale salientar que percebo que tudo que ele diz não é exatamente novo ou inusitado, com exceção da normose que menciono a seguir, mas é um pouco do melhor da arte, filosofia, ciência e religião, interagindo de uma forma deliciosamente descompartimentada.
Finalmente, e acho que este é um conceito extremamente apropriado para nossos dias atuais, ele juntamente com Pierre Weil e Jean-Yves Leloup cunharam há alguns anos o termo normose, um fenômeno social no qual estamos imersos nos dias atuais. Novamente vou fazer uso de minhas anotações, já que sou meio literal nelas: “na normose as pessoas não se responsabilizam. Projetam a responsabilidade no governo e subtraem seu próprio poder. São dois os caminhos da normose: o da repressão (epa, epa) e o da liberação (oba, oba). Precisamos desvelar o caminho do meio, que não vá nem para um extremo nem para o outro. É necessário que tenhamos consciência do momento, de reprimir o contato ou liberá-lo. E assumir a responsabilidade disso. Se nos habituamos com o veneno ele nos é agradável e necessário. Quanto não o recebemos passamos mal. A democracia que temos hoje é a democracia sem consciência.” A normose é a massa sem crítica. É o deixar levar, vivendo a ilusão do ontem e a projeção do amanhã sem viver o agora, aceitando que nossas vidas sejam conduzidas por consciências e crenças que não as nossas.
Na Unipaz, aprendi o sentido real também de duas palavras mágicas: possibilidade e dúvida. Duvide sempre do que se apresenta. Não como o chato que fica rebatendo tudo por rebater ou para ter razão exacerbando seu ego. Duvide do que se apresenta com carinho e gentileza. Duvide internamente e mantenha a amiga pulga atrás da orelha sem ser desconfiado mas sendo curioso. É a consciência do momento e a escuta ativa do que está sendo dito ou do que está acontecendo. Nos falta escutar neste mundo normótico. Mas escutar de verdade, sem ficar preparando o que vai dizer depois enquanto o outro fala. Sim, é bem difícil.
Quanto às possibilidades, ah, as possibilidades. São tantas, tão amplas e tão possíveis. Ampliam o mundo pois desfocam o olho de um único ponto, de um sofrimento, de um drama, de uma desgraça. A escolha é nossa, pois tudo é possível.
Poderia escrever muito mais, mas não pretendo fugir do meu propósito inicial de falar especificamente sobre o Crema e dar um micro noção do que é um seminário dele. Deixo o resto que aprendi para outros posts.
Mas a frase mágica é, sem dúvida: mudar o mundo é mudar o olhar. E agradeço profundamente ao Roberto por existir.
E para fazer uma verdadeira salada de frutas: namaskar! ;)


- Agradeço à Professoras Gilvana Machado e Priscila Pinheiro por me deixarem citá-las e por me ensinarem com tanta maestria.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Família Viajante

Nunca fui fã de diários públicos de viagens porque na verdade acho que ninguém tem paciência para ler uma experiência de viagem que não viveu. Exceto, é óbvio, aqueles sites que dão dicas práticas.
Mas senti a necessidade de contar partes do que vivi nos últimos trinta dias. Mas não exatamente dos lugares que vi e fotos que tirei e sim do aprendizado pessoal que decorre da convivência familiar quando a vemos com olhos mais vividos.
Foram trinta dias viajando pela Espanha, França e Itália com meus pais, ambos com 65 anos e meu filho de 13 anos de idade. Todos durante todo este período dentro de um carro, comigo de motorista. Foram 3.294 Km rodados. Já havíamos viajado juntos antes por períodos menores, mas trinta dias de convivência diária dos quatro foi a primeira vez.
Desde que meu filho completou oito anos e realmente aproveita e lembra das viagens, percebi que era um bom período para começarmos a viajar todos juntos. Meus pais não estão exatamente velhinhos e meu filho ainda não é um adolescente em busca de seu próprio caminho. Mas o fato é que são três gerações viajando dentro de um carro por trinta dias, é evidente que a forma de pensar de cada um é totalmente diferente da do outro. Já é quando somos da mesma geração, imagine uma reconhecendo e convivendo com a outra 24 horas por dia?
Em compensação, a cada vez que viajamos juntos é um salto quântico de aprendizagem para cada um de nós de uma forma.
Como sempre falo, sou "freak" de controle, tudo tem que dar certinho senão eu surto. E é evidente que nada funciona exatamente certinho como a gente planeja (sério?). E sabem do mais legal? Várias coisas (pequenas, óbvio) deram errado e eu não surtei nenhuma vez! Só por aí já fiquei feliz.
Além disso, reafirmei o que sempre acreditei: antes de tentarmos lidar com o mundo e as pessoas que nos cercam, temos que aprender a lidar, respeitar e amar a nós mesmos e a quem nos foi designado com família. Nossos pais, filhos e companheiros que escolhemos.
Com a idade mais avançada, ainda que não muito, vejo as limitações que meus pais já tem. O braço dói, os pés doem, a saída do carro já não é tão ágil e talvez eles não lembrem de tudo que já perguntaram antes... E tudo isso requer paciência e respeito, minha e do adolescente da equação. E a gente teve.
E o contrário também é válido. Meus pais tiveram muita paciência com minha pressa de viver, com a impaciência e eventuais birras do adolescente que não queria ir para a Europa ver "coisa velha" e com as inevitáveis discussões de mãe e filho.
E toda esta paciência e tolerância é linda de se ver e me deixa orgulhosa. Todos nós só melhoramos com o tempo, no que diz respeito a como nos relacionamos. Todos nós reconhecemos o que de bom fizemos para que tudo desse certo: meus pais elogiavam o meu planejamento, que realmente ficou o bicho; o João foi o melhor navegador que eu poderia ter, controlando o GPS, colocando os endereços sem errar nenhuma vez e me ajudando no "entra aqui, entra ali". Sem ele teríamos nos perdido muuuuito mais. Meus pais eram um espetáculo à parte e conferiam um grau de diversão e leveza à viagem que  se eles não estivessem ali talvez não existisse, exatamente porque eles já não levam mais a vida tããão a sério. Riem mais e se divertem mais com tudo, se maravilham mais que nós. E a gente, obviamente aprende com isso. Recorda principalmente de algo em que eu sempre acreditei: bom humor é fundamental e quebra qualquer climão se entrar com jeitinho (rs).
Voltamos todos cansados mas felizes. Vimos coisas maravilhosas, comemos coisas deliciosas e compramos coisas (poucas, afinal é em euro minha gente) lindas. Tudo está nas fotos e na memória. Mas o que aprendemos convivendo, fica para a nossa vida, para a nossa convivência diária em sociedade, pois nos lapida e faz melhores.
Fica, portanto, o meu amor e minha graditão a todos os implicados nesta aventura, que são tão grandes que tive que contar para todo mundo!

segunda-feira, outubro 01, 2012

Colo do mundo


“Quando a gente pára de julgar o mundo, ele pega a gente no colo.”
Estava eu no banho, fazendo o que deve ser feito quando estamos no banho, quando de repente recebo este insight de presente do universo. Santa Isabel (minha psicóloga) que sugeriu exercícios de concentração durante o banho (rs).
Depois de acender minha lâmpada mental, fiquei pensando no significado da frase.
Quantas vezes - e como sempre, falo de mim também - somos duros com o mundo, exigimos que suas contingências se moldem aos nossos desejos e à nossa forma de ser? Evidentemente que quando falo do mundo falo do macro, das pessoas, dos ambientes, enfim do que acreditamos que deve ser.
Julgamos o tempo todo as pessoas com quem nos relacionamos, desde a balconista da loja até nossa família e amigos queridos. E não adianta posar de caridosa porque quem acredita que não julga se engana e perde tempo em não reconhecer sua sombra julgadora e trazê-la para a luz. Eu mesma sou uma julgadora de origem.
Por vezes chegamos ao extremo de exigir que o ambiente, a sonoridade e a temperatura do mundo, se adapte aos nossos desejos de silêncio ou ruído, frio ou calor, dependendo de nosso humor ou vontade. Já ouvi gente reclamando do barulho da festa dos passarinhos e outros sentindo falta de um funk nervoso muito alto em um restaurante, por exemplo. Agora mesmo, estou tentando escrever e meu filho diz que quer ser feliz escutando System of a Down muito alto...
Como já disse, sou uma julgadora de origem reconhecida e auto-consciente. Mas o tempo, a idade e os tapas na cara que o julgamento invariavelmente traz, têm me levado pouco à pouco a exigir menos do mundo como um todo, percebendo que ninguém precisa se adaptar à ninguém e que o nos cabe é  transitar por ele de forma a fazê-lo mais harmônico e fluído. Quando tentamos transitar pela vida apontando nossos dedos longos para tudo e para todos, não vivemos, damos encontrões na vida. É como uma patinadora que escolhe deslizar por um asfalto irregular. Tropeça, cai, se atrapalha e perde tempo de dançar pela vida. E não julgar também é uma escolha.
Certo, reafirmo que acredito ser impossível para nós, seres humanos encarnados na terrinha aqui neste momento histórico, deixar de julgar. Nos cabe agir com nossos julgamentos como olhamos para uma criança levada, do tipo: Ha ha! Estás aí novamente, é? Mas não vou te “comprar”. Não vou abraçar o sentimento que este julgamento me desperta, meio como a história do lobo bom e do lobo mau, o que cresce é o que eu alimento...
E nestas tentativas de leveza, percebo exatamente o que a frase diz. Que nos momentos em que faço as escolhas certas, preferindo deixar de julgar e exigir do mundo que ele seja como eu quero, ele me embala e sorri de um jeito doce e satisfeito por perceber que estou tentando fluir, sem judiar ou tropeçar em seus caminhos. E sabem, fico bem mais feliz assim, no colo do mundo.

sexta-feira, março 02, 2012

Sonho de Verdade

Será que sou só eu quem está achando que o mundo parece acelerado, no que diz respeito aos melhores caminhos a seguir? 
Explico.
À minha volta e até na minha vida (porque podem ter certeza que não me excluo de nada que digo), cada vez mais vejo, por exemplo, aquelas mentiras cabeludas que antigamente viravam segredo de família e esqueletos no armário, aquelas que se contava para os outros só dez anos depois ou na hora da morte e que traumatizavam pessoas; simplesmente eclodirem. A verdade simplesmente aparece, rápida e sem piedade. É meio que a ação e reação ao vivo e à cores, e sem delay.
Parece o Universo dizendo assim: aqui, neste planeta, neste momento histórico, este comportamento não cabe mais. A transparência tem me parecido cada vez mais essencial para a sobrevivência da nossa terrinha. 
Até na política, onde sempre fomos extremamente permissivos, se está exigindo mais de quem administra o dinheiro público e desprezando com mais força a corrupção. Tanto que a Presidente tem passado trabalho para pinçar fichas limpas dentro dos partidos para compor seu ministério. Tudo bem que nesta área o avanço é lento, mas eu o enxergo, pelo menos no que diz respeito à falta de aceitação da população. Vejo mais pessoas mobilizadas por boas causas como o fim da corrupção (que na realidade nada mais é que uma forma abominável de mentira) e o incremento da educação e a valorização do educador, como se as pequenas ilhas de bem que sempre existiram, estivessem se expandindo e se unindo, buscando a unidade pelo bem, independente de cor, credo ou gênero.
Outro ponto de libertação que enxergo, é relativo ao preconceito. Negros, homossexuais, mulheres... Tudo está mais livre, mais solto e mais aceito. Mais igual. Tá, eu sei que existem os grupos homofóbicos, machistas e racistas que violentam, batem e maltratam. Mas o grupo do "outro lado" está maior, da tolerância e da aceitação. Ainda que seja a tolerância tímida, a aceitação do outro e talvez até de si mesmo está sim preponderando. Basta que desviemos o olhar de onde a mídia, que só foca na desgraça, nos direciona. Já diz Roberto Crema, que "mudar o mundo é mudar o olhar".
Quando se discutiu bullying na história da educação da forma como tem sido discutido atualmente? Sempre aconteceu. Claro. Mas a percepção de que só por isso devemos aceitar mudou, ou seja, o fato de ser um hábito não significa que este hábito é bom. 
Vejam bem, não estou colocando um óculos cor-de-rosa para ver o mundo, apesar de às vezes gostar deles. Eu vejo os terrores do nosso tempo e alguns tem sido bárbaros. Só que nossa tolerância para estes terrores está menor, este é o ponto e este ponto que me deixa esperançosa de que tudo vai mudar. Não sei se rápida ou lentamente, se em 2012 ou 2050, mas a única certeza que tenho é que será para melhor.
A humanidade está se despindo dos valores que não servem mais e vestindo novos valores, pautados basicamente no respeito pelo outro, amplo e irrestrito, no não fazer ao outro o que não queremos que façam à nós. Demoramos para entender, mas estamos entendendo.
Cada vez mais precisamos viver e realizar o Namaskar ou Namastê (que já disse e repito: o Ser Divino que existe dentro de mim reverencia e respeita o Ser Divino que existe dentro de você).
Vale até lembrar Jhon Lennon:


"You may say, I'm a dreamer
But I'm not only one
I hope some day you'll join us
And the world will be as one".


Namaskar!